Um espaço para críticas e comentários sobre cultura, livros, filmes, música, comportamento e sociedade.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Silvio Santos quer dinheiro. O seu dinheiro.
É isso, mesmo, leitor. Sílvio Santos quer dinheiro, o seu, o meu, o nosso. Quando eles falam "o governo", à moda de Rockfeller, eu já ponho a mão no talão de cheques. Ok, exagero, mas o fato é que o governo vai salvar o SS, conforme se lê em mais uma história permeada por boatos, cacos de informação e análise capenga. Nesse vuco-vuco de ruídos, o leitor, até o momento, sabe o essencial: Silvio Santos abriu mão de seu patrimônio para saldar a dívida. Eu já pensei em fazer isso. A diferença é que não tenho bilhões a perder. Já Silvio Santos abriu o cofre da joia da coroa. E isso não é pouca coisa.
Há alguns anos, antes de a emissora do Bispo Macedo entrar para o circuito comercial, Silvio Santos tinha planos. Disputava a audiência dominical, fazendo sangrar a TV Globo e sua hegemonia. Agora, isso parece muito remoto, mas o fato é que Silvio Santos conseguiu, aqui e ali, umas vitórias contra a Venus Platinada, a ponto de a emissora, em 2000, comandar uma espécie de desmanche junto ao SBT, trazendo nomes como Jô Soares, que à época contava com alguma reputação, e Serginho "Fala Garoto" Groisman. De 2004 para cá, à medida que a Record se consolidou, o SBT definhou, mas Silvio Santos parecia estável, administrando a sucessão de forma tranquila.
A fazenda, contudo, não estava tranquila. É claro que os analistas do mercado, os mesmos que não viram a crise chegar há dois anos, vão dizer: "eu avisei, eu avisei", mas o cenário em muito se assemelha à crise de 2008, quando o circuit breaker foi acionado. A diferença, talvez, seja o fato de o governo ter agido de forma cirúrgica, e só agora a mídia e a opinião pública estão tomando pé da situação. A propósito, existe até quem veja, nisso, alguma conexão com a guerra das versões, a propósito do já folclórico episódio da guerra das bolinhas. Mas aí já é conspiração demais.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Wall Street - o dinheiro nunca dorme
Oliver Stone é daqueles cineastas cujo nome nem sempre estará associado ao consenso. De um lado e de outro, público, crítica e até mesmo realizadores se dividem em torno da obra desse autor. Haverá quem diga que seus filmes pecam por exagerar no conteúdo político, deixando de se preocupar com os aspectos fílmicos. Em contrapartida, outros tantos salientam que os filmes de Stone merecem status de obra de arte, uma vez que é capaz de executar, com primazia, recursos vários em torno da narrativa. Nesse sentido, é inegável tratar da obra de Stone sem tomar um lado, especialmente quando o autor envereda por uma temática política. É o que o diretor fez no seu mais recente filme, "Wall Street - o dinheiro nunca dorme".
A fita é, como se sabe, continuação daquela outra, de 1987. Voltemos um pouco no tempo e no espaço. Os anos 1980, sacralizados no imaginário social, como a década perdida, tinha seu modelo de herói. Não se trata, aqui, dos seres dotados de poderes extraordinários, ou mesmo de homens que salvavam a nação, com moral elevada. O herói em questão é o modelo de sucesso da classe média estabelecida. Em "Wall Street - poder e cobiça", ele se personificava em Gordon Gekko, vivido por Michael Douglas no auge da forma. Como todo herói, ele professava um credo: "greed is good". Sim, a ganância é, com efeito, uma coisa boa. A felicidade não estava nas realizações que se podiam fazer para o outro; antes, residia na capacidade de acumular riqueza, assumindo o capitalismo não apenas como risco, mas como estilo de vida. A propaganda do cartão de crédito diria: para todas as outras coisas nós temos...
Em 2010, o cenário é certamente outro. Ninguém, em sã consciência, louvará em público que a ganância é boa. Somos recalcados demais para tanto. O bom, agora, é buscar a responsabilidade social, na cultura, no cotidiano, no banco. O anúncio publicitário diz: "nem parece que é banco". E nós, numa espécie de auto-engano, dizemos "tudo bem". Agora, o zeitgest estabelece: é preciso ser bom, não ganancioso ou competente, mas bom. Por isso, nossos preconceitos menos valorosos ou, pior, nossos instintos mais primitivos ficam escondidos. Em "Wall Street - o dinheiro nunca dorme", aprendemos que, agora, os bandidos não apenas são os financistas de Wall Street, mas, também, todos aqueles que decidem embarcar na aventura dos juros e da especulação. E, como diz um Gekko mais envelhecido, mas ainda assim bastante perspicaz: "a ganância não apenas é boa, mas é legal". Não encaramos que o que estamos fazendo esteja errado. Apenas fazemos, e não pensamos em nada.
A mensagem possível é: nesse mundo amoral, cuja moral é provisória (ou líquida), não basta apenas buscar os culpados. Se o objetivo, de fato, é mudar de estilo de vida, vai depender não somente do sistema, mas da mudança de comportamento. Consumistas como somos, talvez seja tarde para isso. É, a ganância é boa. Só não sabíamos que é viciante. E que seus efeitos são deletérios.
A fita é, como se sabe, continuação daquela outra, de 1987. Voltemos um pouco no tempo e no espaço. Os anos 1980, sacralizados no imaginário social, como a década perdida, tinha seu modelo de herói. Não se trata, aqui, dos seres dotados de poderes extraordinários, ou mesmo de homens que salvavam a nação, com moral elevada. O herói em questão é o modelo de sucesso da classe média estabelecida. Em "Wall Street - poder e cobiça", ele se personificava em Gordon Gekko, vivido por Michael Douglas no auge da forma. Como todo herói, ele professava um credo: "greed is good". Sim, a ganância é, com efeito, uma coisa boa. A felicidade não estava nas realizações que se podiam fazer para o outro; antes, residia na capacidade de acumular riqueza, assumindo o capitalismo não apenas como risco, mas como estilo de vida. A propaganda do cartão de crédito diria: para todas as outras coisas nós temos...
Em 2010, o cenário é certamente outro. Ninguém, em sã consciência, louvará em público que a ganância é boa. Somos recalcados demais para tanto. O bom, agora, é buscar a responsabilidade social, na cultura, no cotidiano, no banco. O anúncio publicitário diz: "nem parece que é banco". E nós, numa espécie de auto-engano, dizemos "tudo bem". Agora, o zeitgest estabelece: é preciso ser bom, não ganancioso ou competente, mas bom. Por isso, nossos preconceitos menos valorosos ou, pior, nossos instintos mais primitivos ficam escondidos. Em "Wall Street - o dinheiro nunca dorme", aprendemos que, agora, os bandidos não apenas são os financistas de Wall Street, mas, também, todos aqueles que decidem embarcar na aventura dos juros e da especulação. E, como diz um Gekko mais envelhecido, mas ainda assim bastante perspicaz: "a ganância não apenas é boa, mas é legal". Não encaramos que o que estamos fazendo esteja errado. Apenas fazemos, e não pensamos em nada.
A mensagem possível é: nesse mundo amoral, cuja moral é provisória (ou líquida), não basta apenas buscar os culpados. Se o objetivo, de fato, é mudar de estilo de vida, vai depender não somente do sistema, mas da mudança de comportamento. Consumistas como somos, talvez seja tarde para isso. É, a ganância é boa. Só não sabíamos que é viciante. E que seus efeitos são deletérios.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Dois pitacos sobre a vitória de Dilma Rousseff
A essa altura, o leitor amigo já deve saber que Dilma Rousseff foi eleita presidente da República nas últimas eleições de 31 de outubro. Sobre o que será daqui para frente é melhor deixar para os futurólogos ou para os historiadores. É preciso observar que os resultados são excessivamente recentes para que se estabeleça uma análise fria, ou mesmo quente, dos fatos. Faltará precisão e sobrará impressão em qualquer análise determinista que se queira dar como "a verdade" ou, pior ainda, "a interpretação legítima" das eleições de outubro. Bom, se é para ser assim, por que escrever sobre as eleições? A resposta, estimado leitor, vem nos parágrafos a seguir.
Ocorre que as últimas eleições foram marcadas por um clima ímpar de acirramento do discurso. Trocando em miúdos, os militantes e, mais ainda, os protomilitantes na internet se refestalaram nos ataques ao longo do segundo turno e, pasmem, nas horas seguintes do resultado final. É como se, de fato, a caixa de pandora houvesse sido aberta, e os fantasmas, os medos e o terror do preconceito arraigado tivessem sido liberados de uma hora para outra. De repente, descobrimos, para o bem e para o mal, que a premissa da xenofobia não está tão longe assim do Brasil, país cuja dimensão é continental o suficiente para abarcar dois ou três países. Alguns analistas apressam-se a comentar que a tese de dois brasis não possui qualquer fundamento, sendo utilizada por sociólogos à cata de uma teoria que explica a eleição da candidata do PT. É preciso observar, no entanto, que essa agenda não foi disseminada por esse ou aquele partido, mas está aí, como na peça de Pirandello, à procura de um autor. Ninguém é pai da criança, mas existem falanges do ódio pronto a alimentar esse clima de horror.
Ok, alguns vão afirmar que exagero nas considerações. Talvez, sim. No entanto, é preciso ser um tanto mais alerta para questões que, de antemão, imaginávamos resolvidas. Se é verdade que o Brasil mudou, alguns grupos não necessariamente absorveram a mudança de forma tão esclarecida e tranquila assim. Há quem lute pelo reestabelecimento do que se poderia considerar "Antigo Regime". Desqualifica-los como conservadores ou reacionários é, simplesmente, não ter dimensão verdadeira das raízes do prencoceito de classe e de etnia. É, por demais, enxergar o Brasil como se fosse uma ilha, sem a tensão social que pode cindir o país, ainda que este cenário esteja, verdade seja dita, longe de acontecer. Como presidente da República, Dilma Rousseff tem a missão de, para além de erradicar a pobreza absoluta, estabelecer um pacto social que seja aceito e respeitado não apenas pela nova classe média, mas, sobretudo, pela antiga classe média. De alguma forma, este grupo parece insatisfeito em dividir os bens de consumo (e de "cidadania privilegiada") com esse mais emergente.
Ocorre que as últimas eleições foram marcadas por um clima ímpar de acirramento do discurso. Trocando em miúdos, os militantes e, mais ainda, os protomilitantes na internet se refestalaram nos ataques ao longo do segundo turno e, pasmem, nas horas seguintes do resultado final. É como se, de fato, a caixa de pandora houvesse sido aberta, e os fantasmas, os medos e o terror do preconceito arraigado tivessem sido liberados de uma hora para outra. De repente, descobrimos, para o bem e para o mal, que a premissa da xenofobia não está tão longe assim do Brasil, país cuja dimensão é continental o suficiente para abarcar dois ou três países. Alguns analistas apressam-se a comentar que a tese de dois brasis não possui qualquer fundamento, sendo utilizada por sociólogos à cata de uma teoria que explica a eleição da candidata do PT. É preciso observar, no entanto, que essa agenda não foi disseminada por esse ou aquele partido, mas está aí, como na peça de Pirandello, à procura de um autor. Ninguém é pai da criança, mas existem falanges do ódio pronto a alimentar esse clima de horror.
Ok, alguns vão afirmar que exagero nas considerações. Talvez, sim. No entanto, é preciso ser um tanto mais alerta para questões que, de antemão, imaginávamos resolvidas. Se é verdade que o Brasil mudou, alguns grupos não necessariamente absorveram a mudança de forma tão esclarecida e tranquila assim. Há quem lute pelo reestabelecimento do que se poderia considerar "Antigo Regime". Desqualifica-los como conservadores ou reacionários é, simplesmente, não ter dimensão verdadeira das raízes do prencoceito de classe e de etnia. É, por demais, enxergar o Brasil como se fosse uma ilha, sem a tensão social que pode cindir o país, ainda que este cenário esteja, verdade seja dita, longe de acontecer. Como presidente da República, Dilma Rousseff tem a missão de, para além de erradicar a pobreza absoluta, estabelecer um pacto social que seja aceito e respeitado não apenas pela nova classe média, mas, sobretudo, pela antiga classe média. De alguma forma, este grupo parece insatisfeito em dividir os bens de consumo (e de "cidadania privilegiada") com esse mais emergente.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Uma nota para a Argentina
A notícia, a essa altura, já é de conhecimento geral. O passamento de Nestor Kirchner, que não é esse da foto, é um desses eventos que atestam uma verdade fundamental. Há coisas que só acontecem com a Argentina. Uma década depois do colapso econômico e político, o país, cujo cinema foi vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010, entra em rota de crise de identidade.
Atentai, leitores afoitos. Em rota de crise, ainda não é a crise, per se. Todavia, conforme indicam os analistas, é provável que agora a presidente efetivamente comece a governar. Isso porque os mesmos analistas são unânimes em dizer: Nestor Kirchner era o operador; a esposa, a testa de ferro. Algo que alguns políticos ensaiam em fazer em outras nações, malgrado o fato de a opinião pública rejeitar isso com veemência.
O que resta, afinal de contas, é esperar: até mesmo porque os eventos podem alterar o cenário polítco local, e, por que não?, mudar a balança de poder na América Latina. Já são dois os países que não mais comungam pela cartilha esquerdo-chavista. E a própria argentina agora pode seguir novo rumo. A conferir a rosa-dos-ventos.
Ah, o da foto é Carlos Gardel, pois sim!
Atentai, leitores afoitos. Em rota de crise, ainda não é a crise, per se. Todavia, conforme indicam os analistas, é provável que agora a presidente efetivamente comece a governar. Isso porque os mesmos analistas são unânimes em dizer: Nestor Kirchner era o operador; a esposa, a testa de ferro. Algo que alguns políticos ensaiam em fazer em outras nações, malgrado o fato de a opinião pública rejeitar isso com veemência.
O que resta, afinal de contas, é esperar: até mesmo porque os eventos podem alterar o cenário polítco local, e, por que não?, mudar a balança de poder na América Latina. Já são dois os países que não mais comungam pela cartilha esquerdo-chavista. E a própria argentina agora pode seguir novo rumo. A conferir a rosa-dos-ventos.
Ah, o da foto é Carlos Gardel, pois sim!
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Sobre os 10 anos do Digestivo Cultural
Já contei a história a seguir algumas vezes, uma delas no próprio Digestivo Cultural. Mas aqui vai um arrazoado, para quem estava fora das últimas vezes (e, na verdade, gosto de recordá-la de quando em vez). Enfim, em 2003, recém-formado, era redator júnior de uma provedora de conteúdo. Naquele tempo, as redes sociais ainda não tinham pegado; então, para quem ficava online o tempo todo, sobrava tempo para ler. E, agora não me recordo como, um dia caí no Digestivo Cultural. No primeiro semestre de 2003, os grandes nomes da primeira geração já tinham saído, exceto por Eduardo Carvalho, figura ímpar que você, leitor, precisa conhecer. Trata-se de um sujeito ilustrado, de conversa agradável e de sofisticação admirável. Um dia, aliás, vale a pena escrever sobre as conversas que já tivemos. Mas, enfim, o assunto é o Digestivo.
Vou prosseguir no próximo parágrafo.
De volta, hoje confesso que passei um tempo tentando compreender o funcionamento do Digestivo. Não entendia, num primeiro momento, como é que se dava a periodicidade (para quem é de jornalismo tout court, como eu, tratava-se de uma questão fundamental); do mesmo modo que eu tentava assimilar os digestivos, textos que permanecem na primeira dobra da página. Acho, na verdade, que só fui entender quando passei a comentar as colunas. Era um comentarista contumaz, para falar a verdade. A propósito, ontem mesmo, enquanto lia a nova edição de Piauí, me vi descrito no perfil que Vanessa Bárbara faz do "louco de palestra", o sujeito que "começa querendo fazer uma colocação". Eu não queria fazer qualquer colocação. Na verdade, queria comentar o que lia no Digestivo e não aceitava. De uma hora para outra, passei a bater cartão no site, criticando colunistas como o Jardel Dias Cavalcanti, Daniel Rodrigues Aurélio e até mesmo o Julio Daio Borges, o editor. Sinceramente, não esperava ter qualquer feedback de meus textos. Mas foi o que aconteceu.
Certo dia, logo depois de um email alfinetando uma coluna do Jardel sobre o livro de João Gilberto Noll, recebi uma resposta do Julio. O editor me perguntou o que eu fazia e se gostaria de colaborar para com o site. Eu aceitei, de pronto, e publiquei um texto sobre o estado da arte no jornalismo cultural brasileiro, a saber: "Notas sobre jornalismo cultural". Alguns dias depois, o Julio me aceitou e me efetivou como colunista. Sobre o que escrever? Recebi, logo em seguida, uma caixa com vários livros: literatura, história, ciência política, crítica musical. Passei a resenha-los e descobri uma nova função, paralela, como leitor profissional. Até hoje, escrevo resenhas e devo boa parte de minha formação ao Digestivo Cultural.
Mas não é necessariamente por esse motivo que o Digestivo Cultural deve ser celebrado. Como também já escrevi em outras ocasiões, a riqueza deste veículo é a cultura de seus colaboradores (salve, Adam Smith). Afinal de contas, são algumas gerações de talentos, cujos expoentes mais recentes são Rafael Fernandes, Rafael Rodrigues, Guilherme Montana, para ficar naqueles com quem já conversei pessoalmente ou virtualmente. Poderia citar, sob pena de esquecer de alguém, tantos outros grandes colaboradores, como Diogo Salles, Rafael Fernandes, Eduardo Mineo, Daniela Sandler, Ricardo de Mattos, Jonas Lopes, Andrea Trompcynski, Ram Rajagopal, Adriana Baggio e a lista poderia seguir infinitamente. Além destes, de quem fui e sou leitor, há Luis Eduardo Matta, escritor de talento cuja conversa é, a um só tempo, divertida e sofisticada. Diferentemente de certas publicações, aqui também há o espaço para o contraditório. Assim, já discuti acirradamente com Guga Schultze e Pilar Fazito, para não mencionar a mais prolífica autora do Digestivo, a contundente Ana Elisa Ribeiro, desta última, particularmente, adoro discordar. Acho que a definição foi do já mencionado Daniel Aurélio: no DC, divergimos de forma a exercer a esgrima intelectual, sem cair para a barbárie dos blogs e da discussão rasteira. E, talvez por isso, o veículo sobreviveu.
Hoje, em 2010, procuro, sempre que possível, escrever para o Digestivo, muito embora o tempo esteja cada vez mais rarefeito, mas nem de longe deixei de ler as colunas e as notas. Por isso, vida longa ao Digestivo Cultural! Cheers!
Vou prosseguir no próximo parágrafo.
De volta, hoje confesso que passei um tempo tentando compreender o funcionamento do Digestivo. Não entendia, num primeiro momento, como é que se dava a periodicidade (para quem é de jornalismo tout court, como eu, tratava-se de uma questão fundamental); do mesmo modo que eu tentava assimilar os digestivos, textos que permanecem na primeira dobra da página. Acho, na verdade, que só fui entender quando passei a comentar as colunas. Era um comentarista contumaz, para falar a verdade. A propósito, ontem mesmo, enquanto lia a nova edição de Piauí, me vi descrito no perfil que Vanessa Bárbara faz do "louco de palestra", o sujeito que "começa querendo fazer uma colocação". Eu não queria fazer qualquer colocação. Na verdade, queria comentar o que lia no Digestivo e não aceitava. De uma hora para outra, passei a bater cartão no site, criticando colunistas como o Jardel Dias Cavalcanti, Daniel Rodrigues Aurélio e até mesmo o Julio Daio Borges, o editor. Sinceramente, não esperava ter qualquer feedback de meus textos. Mas foi o que aconteceu.
Certo dia, logo depois de um email alfinetando uma coluna do Jardel sobre o livro de João Gilberto Noll, recebi uma resposta do Julio. O editor me perguntou o que eu fazia e se gostaria de colaborar para com o site. Eu aceitei, de pronto, e publiquei um texto sobre o estado da arte no jornalismo cultural brasileiro, a saber: "Notas sobre jornalismo cultural". Alguns dias depois, o Julio me aceitou e me efetivou como colunista. Sobre o que escrever? Recebi, logo em seguida, uma caixa com vários livros: literatura, história, ciência política, crítica musical. Passei a resenha-los e descobri uma nova função, paralela, como leitor profissional. Até hoje, escrevo resenhas e devo boa parte de minha formação ao Digestivo Cultural.
Mas não é necessariamente por esse motivo que o Digestivo Cultural deve ser celebrado. Como também já escrevi em outras ocasiões, a riqueza deste veículo é a cultura de seus colaboradores (salve, Adam Smith). Afinal de contas, são algumas gerações de talentos, cujos expoentes mais recentes são Rafael Fernandes, Rafael Rodrigues, Guilherme Montana, para ficar naqueles com quem já conversei pessoalmente ou virtualmente. Poderia citar, sob pena de esquecer de alguém, tantos outros grandes colaboradores, como Diogo Salles, Rafael Fernandes, Eduardo Mineo, Daniela Sandler, Ricardo de Mattos, Jonas Lopes, Andrea Trompcynski, Ram Rajagopal, Adriana Baggio e a lista poderia seguir infinitamente. Além destes, de quem fui e sou leitor, há Luis Eduardo Matta, escritor de talento cuja conversa é, a um só tempo, divertida e sofisticada. Diferentemente de certas publicações, aqui também há o espaço para o contraditório. Assim, já discuti acirradamente com Guga Schultze e Pilar Fazito, para não mencionar a mais prolífica autora do Digestivo, a contundente Ana Elisa Ribeiro, desta última, particularmente, adoro discordar. Acho que a definição foi do já mencionado Daniel Aurélio: no DC, divergimos de forma a exercer a esgrima intelectual, sem cair para a barbárie dos blogs e da discussão rasteira. E, talvez por isso, o veículo sobreviveu.
Hoje, em 2010, procuro, sempre que possível, escrever para o Digestivo, muito embora o tempo esteja cada vez mais rarefeito, mas nem de longe deixei de ler as colunas e as notas. Por isso, vida longa ao Digestivo Cultural! Cheers!
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Otávio Frias Filho, ensaísta
No livro Mil Dias: a história da transformação de um jornal, o jornalista e catedrático Carlos Eduardo Lins da Silva abre espaço, já no final do livro, para que um desafeto histórico da publicação comente sobre o jeito Folha de ser. Pois a certa altura do texto, Mino Carta, cuja opinião é bastante virulenta quando se trata de desancar as publicações da "grande mídia" (um dia, quem sabe, vale a pena explicar a respeito), escreve que Otávio Frias Filho, um dos responsáveis pelas mudanças editoriais que marcaram a Folha e o jornalismo brasileiro na década de 1980, só assumiu o jornal porque era filho do dono. Assim, ele jamais saberia se teria mesmo talento para alcançar o status de Diretor de Redação caso seu pai não fosse o "seu Frias".
Ainda que extremada, o relato acima diz muito sobre a opinião acerca de Otávio Frias Filho. É fato: todos adoram odia-lo. O motivo é visível para todos aqueles que, por R$2,50, compram a edição do jornal de maior circulação no País. Para o bem ou para o mal, a Folha de S.Paulo é o veículo, que, contraditório, crítico e plural, agrega os diferentes e permanece no imaginário dos leitores como o veículo mais odiado, como escreveu certa feita Bernardo Kucinski num ensaio publicado no livro Síndrome da Antena Parabólica. Se o jornal é, de fato, o mais odiado, Otavinho, como é chamado por aqueles que supõem possuir alguma relação mais próxima com o jornalista, é a encarnação do mal por aqueles que conseguem identificar um alvo. Infelizmente por esse motivo, toda uma leitura crítica do mundo é deixada de lado por esse misto de preconceito e inveja. E é triste, pura e simplesmente triste, que um país com poucas pessoas afeitas ao debate de ideias e à análise intelectual dos fenômenos sociais contemporâneos ignore um ensaísta como Otávio Frias Filho, cujo livro Seleção Natural, editado pela Publifolha em 2009 é não apenas um belo exemplar desse gênero raro no Brasil como abre espaço para textos que propõem um olhar crítico sobre temas exemplares para o debate intelectual da contemporaneidade.
Exagero? Com efeito, aqui e ali, um professor universitário recalcado, cujo texto não consegue se erigir com sujeito, verbo e complemento, provavelmente dirá que Frias Filho não possui talento ou sequer formação para se meter a escrever sobre teatro (sobre a obra de Nelson Rodrigues e a crítica de Décio de Almeida Prado), política (Alexis de Toqueville; e uma análise do PSDB), literatura (George Orwell e Dostoievski), cinema (François Truffaut e Tim Burton) e, pasmem, a obra de Charles Darwin. Esse mesmo acadêmico padrão se surpreenderia, no entanto, ao saber que Frias consegue dissertar com qualidade sobre esses temas e, mais do que isso, o jornalista possuir, sim, formação acadêmica para tanto: Otávio Frias Filho é formado em Direito e Ciências Sociais, tendo concluído mestrado sob a orientação da profa. Ruth Cardoso. Mas cair na esparrela de debater o livro de Frias por esse viés não é o mais indicado, sobretudo porque o livro se garante a despeito do discurso forjado por certa academia.
O gênio dos ensaios de Seleção Natural reside especificamente na abordagem sofisticada, serena e atemporal que, paradoxalmente, é contrastante com a perspectiva jornalística, que é o da produção em série de textos, sem qualquer tempo para reflexão. Os ensaios, nesse sentido, se distanciam do jornalismo, mas a ele retorna tão logo se descobre que Frias trata de assuntos flertando com o espírito de seu tempo. Ou seja, parte do teórico-conceitual para o factual e às vezes faz o movimento inverso, conduzindo os leitores para os caminhos de sua articulação. É importante frisar que o autor, embora contundente, não impõe seu ponto de vista ao leitor. Antes, faz com que este concorde com sua leitura do mundo com exemplos, ilustrações e bastante sagacidade.
A esta altura, alguém poderá dizer: mas não são muitos elogios? Não, não são. Leiam o livro e vejam como o texto de Frias se consolida pela clareza e pela boa argumentação. Todavia, também é correto afirmar que, em relação à obra anterior (Ensaios de Risco), esta não conta com textos inéditos e/ou previamente articulados entre si. O único ponto fraco, se assim é possível chamar, do livro é exatamente o fato de, ao trazer textos esparsos de Frias publicados nos suplementos culturais da Folha ("Mais"; "Folhetim") ou em publicações diversas ("Piauí" e "Novos Estudos") é mostrar ao leitor que a produção autoral do diretor de Redação da Folha de S.Paulo vai além da assinatura no alto da página do jornal que se confunde com sua trajetória.
É a esse respeito, a propósito, que vale a pena mencionar as duas cartas que seguem como espécie de apêndice ao livro. A primeira tem como título singelo: "Carta Aberta ao sr. Presidente da República". Os tempos eram outros, não há dúvida disso. E a Folha, então, assumiu postura bastante combativa com relação ao governo. Pouco tempo depois, num episódio tão desastroso como conturbado, Fernando Collor de Mello, o presidente em questão, fez com que a Polícia Federal invadisse o jornal. O caso está relatado com mais precisão e detalhe no fundamental Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti. Frias, como resposta, assinou a carta, que foi estampada na primeira página do jornal, deflagrando o posicionamento contrário da publicação contra a figura do presidente. O episódio fez com que a Folha assumisse um papel progressista entre os veículos de comunicação, ainda que não tivesse declarado isso de forma assertiva. Dito de outra forma, a posição da Folha em 1991, quando da publicação da "Carta Aberta", foi circunstancial. O outro texto que merece destaque, ainda nesse segmento do livro, por ocasião da celebração da missa em homenagem à morte de Octavio Frias de Oliveira, o publisher da Folha de S.Paulo. Embora de cunho íntimo e pessoal, é interessante observar que o texto foi publicado no extinto caderno "Brasil" do jornal. E por que uma carta desse teor merece tanto atenção, a ponto de ser deixada no livro? Minha hipótese: trata-se de um testamento de seu Frias. Nela, o filho que assumiu a direção do jornal expõe de forma aberta um pouco da personalidade do pai, numa homenagem, ainda que não barroca, essencialmente sentimental.
Otávio Frias Filho pode ser, para muitos, a verdadeira encarnação do manipulador maquiavélico, alguém de quem é preciso, acima de tudo, desconfiar, especialmente porque é diretor de um jornal que, reconhecidamente, tem apreço pela polêmica e por defender posições fortes (basta lembrar o famigerado caso da Ditabranda, em 2009). A despeito disso, é fundamental considerar, também, Otávio Frias Filho como ensaísta que é, dono de um dos textos mais claros que se tem notícia, algo a não ser escanteado, por mais que os desafetos de Frias afirmem o contrário.
Seleção Natural
Otávio Frias Filho
Ainda que extremada, o relato acima diz muito sobre a opinião acerca de Otávio Frias Filho. É fato: todos adoram odia-lo. O motivo é visível para todos aqueles que, por R$2,50, compram a edição do jornal de maior circulação no País. Para o bem ou para o mal, a Folha de S.Paulo é o veículo, que, contraditório, crítico e plural, agrega os diferentes e permanece no imaginário dos leitores como o veículo mais odiado, como escreveu certa feita Bernardo Kucinski num ensaio publicado no livro Síndrome da Antena Parabólica. Se o jornal é, de fato, o mais odiado, Otavinho, como é chamado por aqueles que supõem possuir alguma relação mais próxima com o jornalista, é a encarnação do mal por aqueles que conseguem identificar um alvo. Infelizmente por esse motivo, toda uma leitura crítica do mundo é deixada de lado por esse misto de preconceito e inveja. E é triste, pura e simplesmente triste, que um país com poucas pessoas afeitas ao debate de ideias e à análise intelectual dos fenômenos sociais contemporâneos ignore um ensaísta como Otávio Frias Filho, cujo livro Seleção Natural, editado pela Publifolha em 2009 é não apenas um belo exemplar desse gênero raro no Brasil como abre espaço para textos que propõem um olhar crítico sobre temas exemplares para o debate intelectual da contemporaneidade.
Exagero? Com efeito, aqui e ali, um professor universitário recalcado, cujo texto não consegue se erigir com sujeito, verbo e complemento, provavelmente dirá que Frias Filho não possui talento ou sequer formação para se meter a escrever sobre teatro (sobre a obra de Nelson Rodrigues e a crítica de Décio de Almeida Prado), política (Alexis de Toqueville; e uma análise do PSDB), literatura (George Orwell e Dostoievski), cinema (François Truffaut e Tim Burton) e, pasmem, a obra de Charles Darwin. Esse mesmo acadêmico padrão se surpreenderia, no entanto, ao saber que Frias consegue dissertar com qualidade sobre esses temas e, mais do que isso, o jornalista possuir, sim, formação acadêmica para tanto: Otávio Frias Filho é formado em Direito e Ciências Sociais, tendo concluído mestrado sob a orientação da profa. Ruth Cardoso. Mas cair na esparrela de debater o livro de Frias por esse viés não é o mais indicado, sobretudo porque o livro se garante a despeito do discurso forjado por certa academia.
O gênio dos ensaios de Seleção Natural reside especificamente na abordagem sofisticada, serena e atemporal que, paradoxalmente, é contrastante com a perspectiva jornalística, que é o da produção em série de textos, sem qualquer tempo para reflexão. Os ensaios, nesse sentido, se distanciam do jornalismo, mas a ele retorna tão logo se descobre que Frias trata de assuntos flertando com o espírito de seu tempo. Ou seja, parte do teórico-conceitual para o factual e às vezes faz o movimento inverso, conduzindo os leitores para os caminhos de sua articulação. É importante frisar que o autor, embora contundente, não impõe seu ponto de vista ao leitor. Antes, faz com que este concorde com sua leitura do mundo com exemplos, ilustrações e bastante sagacidade.
A esta altura, alguém poderá dizer: mas não são muitos elogios? Não, não são. Leiam o livro e vejam como o texto de Frias se consolida pela clareza e pela boa argumentação. Todavia, também é correto afirmar que, em relação à obra anterior (Ensaios de Risco), esta não conta com textos inéditos e/ou previamente articulados entre si. O único ponto fraco, se assim é possível chamar, do livro é exatamente o fato de, ao trazer textos esparsos de Frias publicados nos suplementos culturais da Folha ("Mais"; "Folhetim") ou em publicações diversas ("Piauí" e "Novos Estudos") é mostrar ao leitor que a produção autoral do diretor de Redação da Folha de S.Paulo vai além da assinatura no alto da página do jornal que se confunde com sua trajetória.
É a esse respeito, a propósito, que vale a pena mencionar as duas cartas que seguem como espécie de apêndice ao livro. A primeira tem como título singelo: "Carta Aberta ao sr. Presidente da República". Os tempos eram outros, não há dúvida disso. E a Folha, então, assumiu postura bastante combativa com relação ao governo. Pouco tempo depois, num episódio tão desastroso como conturbado, Fernando Collor de Mello, o presidente em questão, fez com que a Polícia Federal invadisse o jornal. O caso está relatado com mais precisão e detalhe no fundamental Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti. Frias, como resposta, assinou a carta, que foi estampada na primeira página do jornal, deflagrando o posicionamento contrário da publicação contra a figura do presidente. O episódio fez com que a Folha assumisse um papel progressista entre os veículos de comunicação, ainda que não tivesse declarado isso de forma assertiva. Dito de outra forma, a posição da Folha em 1991, quando da publicação da "Carta Aberta", foi circunstancial. O outro texto que merece destaque, ainda nesse segmento do livro, por ocasião da celebração da missa em homenagem à morte de Octavio Frias de Oliveira, o publisher da Folha de S.Paulo. Embora de cunho íntimo e pessoal, é interessante observar que o texto foi publicado no extinto caderno "Brasil" do jornal. E por que uma carta desse teor merece tanto atenção, a ponto de ser deixada no livro? Minha hipótese: trata-se de um testamento de seu Frias. Nela, o filho que assumiu a direção do jornal expõe de forma aberta um pouco da personalidade do pai, numa homenagem, ainda que não barroca, essencialmente sentimental.
Otávio Frias Filho pode ser, para muitos, a verdadeira encarnação do manipulador maquiavélico, alguém de quem é preciso, acima de tudo, desconfiar, especialmente porque é diretor de um jornal que, reconhecidamente, tem apreço pela polêmica e por defender posições fortes (basta lembrar o famigerado caso da Ditabranda, em 2009). A despeito disso, é fundamental considerar, também, Otávio Frias Filho como ensaísta que é, dono de um dos textos mais claros que se tem notícia, algo a não ser escanteado, por mais que os desafetos de Frias afirmem o contrário.
Seleção Natural
Otávio Frias Filho
Logicomix: Filosofia em Quadrinhos
Antes do texto, a confissão: sempre torci o nariz para textos literários em quadrinhos. A meu ver, talvez por demais influenciado por certo ranço da teoria crítica, os quadrinhos eram a mais perfeita tradução do kitsch, do midcult, da mistificação em torno de um produto da cultura de massas. A manifestação literária em quadrinhos merecia para mim a lata de lixo da história. Uma mistura, enfim, de ignorância com prepotência e preconceito. Coisas de jornalista.
Há algumas semanas, recebi, da editora Martins Fontes, a graphic novel Logicomix, assinada pelos autores Apostolos Dioxiadis, Christos Papadimitrou, Alecos Papapdatos e Annie di Donna. Trata-se de obra de respeito, que desata os preconceitos mais toscos em torno de uma produção literária (sim, literária) em quadrinhos. Mais do que adaptação, o texto assinado pelos quatro autores merece destaque e elogios pela sua originalidade. A narrativa se dá em duas camadas: numa primeira moldura, existe a história de quatro autores que buscam apresentar uma narrativa em quadrinhos sobre lógica, filosofia e busca da verdade. Para tanto, e aqui entra a segunda moldura, existe a narrativa da trajetória sentimental e intelectual do filósofo Bertrand Russel, um dos expoentes da lógica e do pensamento racional.
A virtude da obra reside no fato de a narrativa se apresentar de maneira pouco óbvia. Isto é, o texto consegue apresentar de maneira sofisticada elementos conceituais além de não perder o fôlego de uma história em quadrinhos. Para mim, isso fica claro em um elemento a um só tempo subjetivo e essencial: sendo um leitor interessado em filosofia, não senti que o conteúdo foi vilipendiado por uma pretensão proto-elaborada. Pelo contrário. Os autores não baixam a guarda, enfatizando a importância da reflexão e pontuando a jornada de Russel com as alusões e referências a autores e conceitos. Nomes como o romancista russo Turgêniev, ou o pensador austríaco Wittgenstein; do mesmo modo como existe a apreciação dos pressupostos da lógica.
Se é verdade que uma das premissas filosóficas é a curiosidade, também é correto afirmar que o texto de Logicomix se notabiliza por não apenas aguçar o interesse do leitor, mas, outrossim, por oferecer ao público um jornada intelectual que em nada diminui os conceitos ou os autores citados. Talvez o mais relevante esteja no fato de Logicomix extravasar a ideia banal que alguns possuem sobre graphic novel.
Há algumas semanas, recebi, da editora Martins Fontes, a graphic novel Logicomix, assinada pelos autores Apostolos Dioxiadis, Christos Papadimitrou, Alecos Papapdatos e Annie di Donna. Trata-se de obra de respeito, que desata os preconceitos mais toscos em torno de uma produção literária (sim, literária) em quadrinhos. Mais do que adaptação, o texto assinado pelos quatro autores merece destaque e elogios pela sua originalidade. A narrativa se dá em duas camadas: numa primeira moldura, existe a história de quatro autores que buscam apresentar uma narrativa em quadrinhos sobre lógica, filosofia e busca da verdade. Para tanto, e aqui entra a segunda moldura, existe a narrativa da trajetória sentimental e intelectual do filósofo Bertrand Russel, um dos expoentes da lógica e do pensamento racional.
A virtude da obra reside no fato de a narrativa se apresentar de maneira pouco óbvia. Isto é, o texto consegue apresentar de maneira sofisticada elementos conceituais além de não perder o fôlego de uma história em quadrinhos. Para mim, isso fica claro em um elemento a um só tempo subjetivo e essencial: sendo um leitor interessado em filosofia, não senti que o conteúdo foi vilipendiado por uma pretensão proto-elaborada. Pelo contrário. Os autores não baixam a guarda, enfatizando a importância da reflexão e pontuando a jornada de Russel com as alusões e referências a autores e conceitos. Nomes como o romancista russo Turgêniev, ou o pensador austríaco Wittgenstein; do mesmo modo como existe a apreciação dos pressupostos da lógica.
Se é verdade que uma das premissas filosóficas é a curiosidade, também é correto afirmar que o texto de Logicomix se notabiliza por não apenas aguçar o interesse do leitor, mas, outrossim, por oferecer ao público um jornada intelectual que em nada diminui os conceitos ou os autores citados. Talvez o mais relevante esteja no fato de Logicomix extravasar a ideia banal que alguns possuem sobre graphic novel.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
A América para os bandeirantes
Causou-me espécie o anúncio publicado na primeira página do caderno Ilustrada, da Folha de S.Paulo. Resumo da Ópera: um tradicional colégio de São Paulo, liceu da fina flor da elite paulistana (a Elite Branca, diria Claudio Lembo), manda avisar que "yes, nós preparamos para o SAT". O SAT, como sabem todos aqueles que já assistiram a um filminho yankee, é aquele exame comprobatório da capacidade dos alunos ingressarem no concorrido, disputado e sofisticado Sistema de Ensino Superior dos Estados Unidos. É uma espécie de ENEM, sem os vazamentos e com a garantia de que, uma vez tendo conquistado boas notas, o aluno tem a oportunidade de ingressar em respeitadas instituições de ensino dos EUA.
Em verdade, a opção pelo SAT, assim como as inúmeras oportunidades de intercâmbio que têm sido oferecidas pelas universidades particulares brasileiras, mostra que a preocupação com a grife educacional é, talvez, mais importante do que com a formação em si. Dito de outra maneira, agora que o ensino superior é, à sua maneira, uma espécie de commodity, não basta ingressar em instituições de ensino. É preciso que esta instituição ofereça algo mais do que a educação. E, nesse caso, se a formação vier com a chancela do USA, rá, a elite poderá esfregar na cara do andar de baixo: "Ei, enquanto seu diploma é da Uni-du-ni-tê, o meu é de uma Ivy League". Do ponto de vista prático: enquanto a Classe C ingressa no ensino superior para, quem sabe, conquistar uma vaga de trabalho como operador de telemarketing, os verdadeiros donos do poder seguirão no topo da pirâmide, não importando aqui com essa suposta ascensão social. É como se dissessem: "ok, vocês podem estudar, mas isso não vai mudar nada, ok? Nossa formação ainda é melhor. Quem diz é o próprio mercado". E, nesse jogo de cartas marcadas, já sabemos para onde a balança vai pender.
Mas, é claro, a todos aqueles que desejarem estudar no referido colégio, creio eu, não vão faltar oportunidades. Até porque, imagino, o processo deve ser democrático o bastante para deixar ingressar na escola todos aqueles que puderem financiar seus estudos. Não há almoço grátis, diria aquele simpático velhinho.
Em verdade, a opção pelo SAT, assim como as inúmeras oportunidades de intercâmbio que têm sido oferecidas pelas universidades particulares brasileiras, mostra que a preocupação com a grife educacional é, talvez, mais importante do que com a formação em si. Dito de outra maneira, agora que o ensino superior é, à sua maneira, uma espécie de commodity, não basta ingressar em instituições de ensino. É preciso que esta instituição ofereça algo mais do que a educação. E, nesse caso, se a formação vier com a chancela do USA, rá, a elite poderá esfregar na cara do andar de baixo: "Ei, enquanto seu diploma é da Uni-du-ni-tê, o meu é de uma Ivy League". Do ponto de vista prático: enquanto a Classe C ingressa no ensino superior para, quem sabe, conquistar uma vaga de trabalho como operador de telemarketing, os verdadeiros donos do poder seguirão no topo da pirâmide, não importando aqui com essa suposta ascensão social. É como se dissessem: "ok, vocês podem estudar, mas isso não vai mudar nada, ok? Nossa formação ainda é melhor. Quem diz é o próprio mercado". E, nesse jogo de cartas marcadas, já sabemos para onde a balança vai pender.
Mas, é claro, a todos aqueles que desejarem estudar no referido colégio, creio eu, não vão faltar oportunidades. Até porque, imagino, o processo deve ser democrático o bastante para deixar ingressar na escola todos aqueles que puderem financiar seus estudos. Não há almoço grátis, diria aquele simpático velhinho.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Somos todos Tiriricas?
A mídia reclama. Os intelectuais grasnam. A choldra se incomoda. A elite faz cara de nojo. Escolha o seu grupo, mas o inimigo do povo, hoje, atende pela alcunha de Tiririca, o cantor-humorista que, agora, quer ser Deputado Federal. Ninguém sabe muito bem por que. Nem mesmo ele, conforme se vê no Horário Eleitoral, parece ter certeza de seus ideiais. Aqui, talvez, eu esteja comtendo um engano: o único ideal de Tiririca é ser eleito para o cargo de Deputado Federal. E tome reprimenda. De todos os lados, há quem censure o dublê de político, suas vestimentas, sua retórica chula, sua fala infantil e seus maus hábitos. É como se, na protocidadania que é o Brasil, o Tiririca fosse um verdadeiro --- quiçá o único --- bestializado, alguém que desmascara o nosso jeito tosco de ser. E, num país cioso de suas (supostas) virtudes, ninguém quer ser feio, ser desafinado, destoar do discurso politicamente correto. Ninguém quer ser Tiririca. Ou, antes, ninguém quer que o Tiririca apareça por aí, extravasando nossas fissuras sociais e nossos instintos mais primitivos. Toscos, sim, mas sem perder a ternura. E o Tiririca, como diria meu amigo Marcos Lauro, perdeu toda a ternura.
Mas eu divago. Não quero, aqui, defender o Tiririca. Ele nem precisa. Ao que tudo indica, vai ser eleito com folga --- e o sistema político nacional é que precisa debater esse tipo de aberração eleitoral. O que chama a atenção é a reprimenda de todas as frentes que existe ao Tiririca. Evidentemente, o problema não é o Tiririca, mas a ideia do Tiririca. Concebem? Não? Eu explico. O problema é o Tiririca sair por aí, dando opiniões, mostrando a cara do Brasil que se esconde por trás da suposta Classe C. É a gente humilde da música de Vinícius de Moraes que quer brincar de ser Gordon Gekko, mas, de alguma maneira, está no meio do caminho do paraíso. Em síntese, há um temor de que tudo volte a ser esculhambado como antes, e o Tiririca é a lembrança de que jamais deixamos de ser o Bananão (salve, Ivan Lessa). O Brasil não conhece o Brazil. E o Tiririca é o ponto fora da curva que os números recentes do PNAD e de todas as pesquisas sobre desenvolvimento social e crescimento econômico não mostram. É a nossa face mais abjeta.
Tiririca, portanto, não peca pela sua gramática, ou por seu estilo; nem pelo conteúdo, tampouco pela forma. Tiririca peca porque expõe aos olhos de todos que ainda somos semianalfabetos; que estámos au-dessous da civilização; que a gente somos inútil. Tiririca está errado porque, ao aparecer no programa eleitoral gratuito como candidato a Deputado Federal, revelando sua ignorância acerca da coisa pública, reafirma que nós ainda não superamos. Ao fim e ao cabo, é como se ele perguntasse: somos todos Tiriricas?
Mas eu divago. Não quero, aqui, defender o Tiririca. Ele nem precisa. Ao que tudo indica, vai ser eleito com folga --- e o sistema político nacional é que precisa debater esse tipo de aberração eleitoral. O que chama a atenção é a reprimenda de todas as frentes que existe ao Tiririca. Evidentemente, o problema não é o Tiririca, mas a ideia do Tiririca. Concebem? Não? Eu explico. O problema é o Tiririca sair por aí, dando opiniões, mostrando a cara do Brasil que se esconde por trás da suposta Classe C. É a gente humilde da música de Vinícius de Moraes que quer brincar de ser Gordon Gekko, mas, de alguma maneira, está no meio do caminho do paraíso. Em síntese, há um temor de que tudo volte a ser esculhambado como antes, e o Tiririca é a lembrança de que jamais deixamos de ser o Bananão (salve, Ivan Lessa). O Brasil não conhece o Brazil. E o Tiririca é o ponto fora da curva que os números recentes do PNAD e de todas as pesquisas sobre desenvolvimento social e crescimento econômico não mostram. É a nossa face mais abjeta.
Tiririca, portanto, não peca pela sua gramática, ou por seu estilo; nem pelo conteúdo, tampouco pela forma. Tiririca peca porque expõe aos olhos de todos que ainda somos semianalfabetos; que estámos au-dessous da civilização; que a gente somos inútil. Tiririca está errado porque, ao aparecer no programa eleitoral gratuito como candidato a Deputado Federal, revelando sua ignorância acerca da coisa pública, reafirma que nós ainda não superamos. Ao fim e ao cabo, é como se ele perguntasse: somos todos Tiriricas?
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