segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Uma Pintura às sextas -- W. Kandinsky

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Uma Pintura às sextas - Magritte

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

A TV dos Manos e Minas


Parece que a TV Cultura, a tevê que ninguém vê, vai estrear nova programação em breve. Causou muita celeuma, aliás, a presença de João Sayad à frente da instituição, posto que, desde a sua chegada, as palavras mais mencionadas pelo economista e dublê de gestor de TV Pública têm sido “cortes”, “reestruturação”; “cancelamento”, entre outras que remetem ao campo semântico da demissão, provocando gritos e sussurros de indignação na classe média mais lida e intelectualizada.
A propósito disso, e para não repetir outras análises interessantes sobre o tema, talvez seja pertinente refletir na comoção que causou o anúncio do fim do programa “Manos e Minas”, que, segundo consta, visa a mostrar a chamada “cultura de periferia”. Já escrevi sobre esse engodo há uns dois anos, quando, por acaso, tive a oportunidade de assistir à atração (e, pelo andar da carruagem, é provável que volte a escrever a respeito dentro em breve). O que me move a escrever sobre o tema novamente é o artigo de Maria Rita Kehl, a psicanalista-letrada dos cadernos de cultura.
E o que escreve Maria Rita Kehl? Ora, num texto apaixonado e sofisticado a autora faz jus ao pensamento bem-pensante ora vigente. Em outras palavras, ela teme, e treme, pelo fim do espaço concedido à manifestação cultural da periferia e chega ao absurdo de comparar a extinção do programa às “desastradas políticas de limpeza da cracolândia”. Trata-se, evidentemente, de uma tática bastante comum a certo esquerdismo comparar alhos com bugalhos. O que chama a atenção é a hora e o momento dessa comparação. Como militante histórica do PT (deve ter feito parte do núcleo fundador do partido, como tantos outros intelectuais), escreve atirando na gestão do PSDB no Estado de São Paulo. E o curioso é que não apareceu ninguém para dizer que, por acaso, essa pode ser uma diretriz de ordem editorial da emissora, e não necessariamente uma política de “limpeza”. Como psicanalista, ela sabe que as palavras e as coisas têm lá seu valor, servindo bem ao discurso construído estruturalmente. Nesse sentido, Maria Rita quer é afirmar que essa limpeza acontece porque a gestão é do PSDB, sem se lembrar de que João Sayad fez parte das fileiras petistas .
Em outra, digamos, “ilustração” sem sentido, a psicanalista ataca a Sala São Paulo, comparando o público da TV com o público que freqüenta aquele espaço. Bom, como o texto deve ter sido encomendado, a autora não deve ter feito a lição de casa e procurado alguns números relacionados à audiência – do mesmo modo como deve freqüentar pouco o espaço onde acontece as apresentações da Osesp. Um fato: ninguém assiste à programação da TV Cultura, independente da programação. E isso, sim, é ruim, já que, se é verdade que os princípios da emissora não devem ser norteados pela audiência das emissoras comerciais, por outro, as atrações não devem desprezar o interesse público – o que não necessariamente é o interesse de um ou outro espectador, ainda mais se este for psicanalista.
A despeito do que escrevi, a essa altura a direção da emissora recuou ante o posicionamento dos formadores de opinião em relação ao “Manos e Minas”. Vejam, não houve necessariamente mobilização das periferias pelo retorno do programa, o que, isto sim, legitimaria o retorno da atração. O que aconteceu? Jornalistas, blogueiros, ativistas, twitteiros e, claro, psicanalistas – todos dando expediente de formadores de opinião – decidiram se revoltar com o fim do Programa. Acho que agora começo a entender: pelos índices de audiência do programa, estes devem ser o público mais fiel da atração.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A política como jogo de cena


A não ser por uma grande reviravolta, dessas que acontecem no plano da ficção, as eleições deste ano acontecerão sem sobressaltos. Os candidatos cumprem estoicamente os papéis que lhes foram conferidos pelos encantadores de serpente, mas isso não significa que uma mudança surgirá dali. Em linhas gerais, esse estado de coisas reflete o simbólico fim da política, enterrada há tempos pelos protagonistas e coadjuvantes desse debate.

Sobre o tema, a respeito do qual voltarei a escrever, o cientista político Marco Antonio Villa e o crítico cultural e sociólogo Marcelo Coelho apresentam pontos interessantes que, a despeito de suas pecualiaridades, estão relacionados um com o outro.

Assim, enquanto Marcelo Coelho escreve que, agora, são os publicitários que parecem fazer propraganda de si mesmos, Marco Antonio Villa atenta para o fato da despolitização ter servido, entre outras coisas, para esvaziar o discurso da oposição, o que explica a queda vertiginosa de um candidato que até bem pouco tempo estava à frente das pesquisas.

O pior é acreditar que ainda debatemos sobre política, quando está claro que esse tema aparece de forma periférica nos programas, nos discursos e até mesmo nos programas de governo. Diriam os intelectuais, é o simulacro da política.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Ilha do Medo, por Martin Scorcese


Assisti Ilha do Medo em fevereiro, à época em que a película estava em cartaz nos cinemas. Agora, vi que a fita chegou às locadoras. Creio que é oportuno ressaltar a relevância desse filme, tanto pelo significado fílmico quanto pela mensagem que a obra transmite.

Dirigido por Martin Scorcese, talvez um dos maiores --- senão o maior --- cineastas em atividade, o filme traz novamente Leonardo Di Caprio como protagonista de uma das obras do diretor de Taxi Driver e Touro Indomável. Assim, como em Os Infiltrados e Gangues de Nova York vemos Di Caprio mergulhar na densidade de suas personagens, aqui certamente mais "sujas" que as atuações da década de 1990, quando foi a estrela de Diários de um Adolescente e, vergonha alheia, Titanic. Não, não quero aqui afirmar que aqueles filmes não tinham lá sua beleza. Apenas constato que, de lá para cá, não apenas o mundo mudou, mas, ao que parece, Leonardo Di Caprio, que parece selecionar mais os filmes em que pretende atuar, como que numa assinatura de seu trabalho como ator.

Calma, leitor, não divago. Tão somente construo uma linha de raciocínio. Acompanhe-me, por favor. Di Caprio, em Ilha do Medo, é peça-chave de um quebra-cabeças ao qual o espectador é inserido logo no início da ação. Dito de outra forma, quando o filme começa, uma perseguição passa a ser empreendida. Aparentemente, dois detetives saem à cata de uma paciente que desapareceu dentro de uma instituição psiquiátricas. Naquele cenário, além das brumas, paira a suspeita de que os internos são submetidos a tratamentos contrários à sua vontade. O mistério é grande, mas, à medida que a trama se desenvolve, o publico aprende que o thriller que interessa não ocorre no plano da ação, mas, antes, na esfera psicológica, respeitando, assim, o texto original, assinado pelo escritor Dennis Lehane.

No que se refere à forma, Scorcese consegue dar ao filme um acabamento bastante articulado ao filme, reconstruindo, agora do ponto de vista imagético, as características algo sombrias da história. Nesse sentido, do cenário às locações, passando, ainda, pelo contexto, tudo remete ao espaço no tempo no qual a narrativa acontece. Desse modo, para além do texto, a audiência é, sim, envolvida pelo que vê. Já no tocante ao conteúdo, a mensagem da película não poderia ser mais contundente no que se refere àquilo que, muitas vezes, somos levados a crer, de acordo com nossos próprios fantasmas, medos e paranoias. Para quem não assistiu, não há como acabar com a surpresa. Ilha do Medo é desses filmes capazes de romper com a expectativa, mesmo quando se imagina que tudo já foi revelado. Eis um mérito do realizador, posto que não desfez o mistério central da história.