Reinaldo Azevedo e Pedro Doria, dois dos blogueiros-jornalistas mais lidos e influentes da internet brasileira, raramente concordam sobre alguma coisa. De forma não tão declarada, ambos, de certa forma, representam a figura do conservador e a do liberal. O primeiro coloca sua pena a serviço das causas dadas como perdidas no debate de idéias. É ele, Reinaldo, o outro lado de uma conversa frequentemente enviesada. Já Pedro Doria representa uma lufada de ar novo na discussão política brasileira, em especial se se imaginar daqueles que preferem debater idéias a buscar ecos favoráveis às suas teses. Nesse sentido, pode-se discordar de Pedro Doria, mas é inegável que ele realiza um trabalho jornalístico que poucos fazem na internet, ainda que esteja, quase sempre, mais à esquerda no debate intelectual.
Tudo isso para dizer que os dois, que sempre discordam em quase tudo, entraram em acordo, obviamente não declarado, a respeito da última mensagem sobre o senador Jéfferson Peres, que morreu na manhã desta sexta-feira (23) em Manaus. Sobre ele, Doria escreveu: "Poucas pessoas farão tanta falta ao Senado quanto Jefferson Peres fará." Já Azevedo vai além e presta uma interessante homenagem ao senador: posta um poderoso discurso do senador, dessas pérolas que só a verve política pode produzir. A certa altura, Péres desnuda a lógica política do Brasil, quando comenta a postura da classe intelectual do país, que, naquele momento, agia de forma cínica com seu apoio ao governo. Enfim, os textos valem a leitura, e o discurso de Péres mostra um pouco de como o Brasil poderia ter sido.
Um espaço para críticas e comentários sobre cultura, livros, filmes, música, comportamento e sociedade.
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sexta-feira, 23 de maio de 2008
terça-feira, 20 de maio de 2008
Sobre os cretinos fundamentais e a idiotia da objetividade
De cara, já explico. Esse texto era para ser menos convulsivo e mais reflexivo. Mais racional e menos passional. Mais estruturado e menos fragmentado. Não consegui. E a razão para tanto é que, a despeito de prezar pelo Discurso do Método, uma obra-prima do pensamento de Descartes, não sou um idiota da objetividade. E, como é sobre eles que trato neste post, não posso repetir um de seus motores: o fundamentalismo da racionalidade. Falo mais adiante sobre isso. Antes, porém, cumpre escrever sobre o significado da idiotia da objetividade.
O termo foi cunhado pelo genial Nelson Rodrigues. Para o autor de "Senhora dos Afogados", o idiota da Objetividade é o sujeto "impotente do sentimento". Ou seja, o fulano que é incapaz de se tocar por algum fato, por mais abjeto que seja, em nome da suposta objetividade, por uma vislumbrada isonomia das partes, tornando cerimonial uma discussão que deveria ser apenas uma discussão. E, com isso, vemos inúmeras pessoas, das mais variadas matrizes sociais, desejando a objetividade como se esta fosse um salva-guarda da razão em tempos de barbárie. Nelson Rodrigues, ao contrário, enxergava na objetividade a aniquilação das sensações, como se, efetivamente, as pessoas se tornassem menos humanas à medida que se transformavam em objetivas e tudo mais.
Nelson Rodrigues considerava o copy-desk - o jornalista que reescrevia os textos para um formato mais, digamos, preciso ou ao estilo do veículo para o qual trabalhava - a figura-chave para entendermos como o mundo se tornou mais "objetivo". Nas palavras do dramaturgo, se aparacesse um Proust, com seu estilo retumbante e aterrador, lá estaria um copy-desk para lhe pontuar os períodos, diminuir os parágrafos, e cortar os adjetivos. Dirão alguns que Graciliano Ramos escreveu que escrever é cortar palavras. Sim, é verdade, mas quem lê Memórias do Cárcere, sabe que o autor do fundamental Vidas Secas não poupava nas sensações e no relato impressionista. Eis o que deseja o copy-desk: os fatos, como se estes essencialmente existissem ou sobrepesassem num relato, qualquer que seja. Da mesma forma, para o idiota da objetividade, é possível contar uma história de forma imparcial, sendo direto e, sobremaneira, preocupando-se apenas com os fatos.
Daí que, finalmente, chegamos ao idiota da objetividade a que me refiro neste texto. Trata-se do jornalista de grande jornal que, acostumado que está com a precariedade dos relatos que lhe soam como brilhantes peças de redação jornalística, pressupões que ninguém mais deve escrever de forma não objetiva. Isto é, qualquer relato, diz o idiota, necessita cumprir as regras dentro do código da objetividade que, em linhas gerais, pode ser sintetizado pelo Manual de Redação. Triste, mas verdade: o idiota da objetividade, tal como um cretino fundamental, defende uma idéia estapafúrdia como se fosse uma tese genial. Por isso, nem percebe os absurdos que profere como se fosse douto de toda a ciência e da razão da objetividade.
Nessa guinada quase medieval, esse cretino fundamental --- soberbo na ignorância das outras histórias que são contadas enquanto ele tenta dar objetividade ao universo, com sua gramática sem estilo e suas intervenções pseudo-sarcásticas --- sequer cogita a possibilidade de um parágrafo extenso, com vírgulas, elipses, travessão, diálogo, trecho de cinema, recursos que estão fora de moda, é verdade, mas que, definitivamente fogem à regra da objetividade. Até porque se, conceitualmente, ela é inconcebível, de que adianta emula-la num exercício de estilo ou mistificação?
Enquanto você, bravo leitor, que até aqui chegou na tenta responder o dilema aí acima, eu me vou, sem antes assumir que, sim, este texto até pode carecer de certa organização formal, mas, jamais, eu repito, jamais, poderá ser enquadrada sob a ofuscada lente da objetividade. Nunca. Até porque é preciso ser bastante obtuso para ter tal pretensão.
O termo foi cunhado pelo genial Nelson Rodrigues. Para o autor de "Senhora dos Afogados", o idiota da Objetividade é o sujeto "impotente do sentimento". Ou seja, o fulano que é incapaz de se tocar por algum fato, por mais abjeto que seja, em nome da suposta objetividade, por uma vislumbrada isonomia das partes, tornando cerimonial uma discussão que deveria ser apenas uma discussão. E, com isso, vemos inúmeras pessoas, das mais variadas matrizes sociais, desejando a objetividade como se esta fosse um salva-guarda da razão em tempos de barbárie. Nelson Rodrigues, ao contrário, enxergava na objetividade a aniquilação das sensações, como se, efetivamente, as pessoas se tornassem menos humanas à medida que se transformavam em objetivas e tudo mais.
Nelson Rodrigues considerava o copy-desk - o jornalista que reescrevia os textos para um formato mais, digamos, preciso ou ao estilo do veículo para o qual trabalhava - a figura-chave para entendermos como o mundo se tornou mais "objetivo". Nas palavras do dramaturgo, se aparacesse um Proust, com seu estilo retumbante e aterrador, lá estaria um copy-desk para lhe pontuar os períodos, diminuir os parágrafos, e cortar os adjetivos. Dirão alguns que Graciliano Ramos escreveu que escrever é cortar palavras. Sim, é verdade, mas quem lê Memórias do Cárcere, sabe que o autor do fundamental Vidas Secas não poupava nas sensações e no relato impressionista. Eis o que deseja o copy-desk: os fatos, como se estes essencialmente existissem ou sobrepesassem num relato, qualquer que seja. Da mesma forma, para o idiota da objetividade, é possível contar uma história de forma imparcial, sendo direto e, sobremaneira, preocupando-se apenas com os fatos.
Daí que, finalmente, chegamos ao idiota da objetividade a que me refiro neste texto. Trata-se do jornalista de grande jornal que, acostumado que está com a precariedade dos relatos que lhe soam como brilhantes peças de redação jornalística, pressupões que ninguém mais deve escrever de forma não objetiva. Isto é, qualquer relato, diz o idiota, necessita cumprir as regras dentro do código da objetividade que, em linhas gerais, pode ser sintetizado pelo Manual de Redação. Triste, mas verdade: o idiota da objetividade, tal como um cretino fundamental, defende uma idéia estapafúrdia como se fosse uma tese genial. Por isso, nem percebe os absurdos que profere como se fosse douto de toda a ciência e da razão da objetividade.
Nessa guinada quase medieval, esse cretino fundamental --- soberbo na ignorância das outras histórias que são contadas enquanto ele tenta dar objetividade ao universo, com sua gramática sem estilo e suas intervenções pseudo-sarcásticas --- sequer cogita a possibilidade de um parágrafo extenso, com vírgulas, elipses, travessão, diálogo, trecho de cinema, recursos que estão fora de moda, é verdade, mas que, definitivamente fogem à regra da objetividade. Até porque se, conceitualmente, ela é inconcebível, de que adianta emula-la num exercício de estilo ou mistificação?
Enquanto você, bravo leitor, que até aqui chegou na tenta responder o dilema aí acima, eu me vou, sem antes assumir que, sim, este texto até pode carecer de certa organização formal, mas, jamais, eu repito, jamais, poderá ser enquadrada sob a ofuscada lente da objetividade. Nunca. Até porque é preciso ser bastante obtuso para ter tal pretensão.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Blogs: idéias pela rede
Nos últimos meses, tem crescido o debate acerca da natureza dos blogs. Antes tratados como diários online, coisa de adolescente ou de desocupado, agora é comum ouvir 11 em cada dez especialistas dizendo que os blogs vieram para abalar as verdades sagradas dos jornais. Sites de cultura, como o Digestivo Cultural, já dedicaram especiais para abordar do tema, um deles, by the way, recentemente. Por outro lado, a mídia grande, como dizia o finado Sergio de Souza, também tem feito suas investidas para tentar interpretar e incorporar o fenômeno. De repente, (quase) todos os jornalistas têm um blog, mas, ainda assim, não se tem uma interpretação que fuja da tese apocalípticos e integrados.
Por acaso, por acaso mesmo, acabo de ler um texto que aborda o tema com bastante propriedade. Foi na The New York Review of Books, num ensaio assinado por Sarah Boxer. A indicação veio através do blog do cientista político Luiz Felipe D'Alencastro.
O que o texto de Sarah Boxer traz de novo? Bom, entre outras coisas, faz um resgate histórico do uso do termo blog (tá bom, isso não é novo...); analisa de que maneira seu crescimento tem a ver com um novo comportamento da sociedade, mais participativa; e revela como a escrita "bloguistica" se distancia da prosa que se lê nos jornais, por exemplo. E no ponto alto do texto Boxer escreve que um blog está perto de perder sua originalidade quando --- vejam só, blogueiros nativos --- o dinheiro começa a correr solto. É por isso que os jornalistas não conseguem blogar. Eles, simplesmente, seguem fazendo relatos jornalísticos, o que é totalmente diferente do texto de Blog (mais próximo, diz a autora, dos diálogos de Platão) --- e isso, nem mesmo Pedro Doria, reconhecido jornalista-blogueiro, parece ter entendido direito.
Por acaso, por acaso mesmo, acabo de ler um texto que aborda o tema com bastante propriedade. Foi na The New York Review of Books, num ensaio assinado por Sarah Boxer. A indicação veio através do blog do cientista político Luiz Felipe D'Alencastro.
O que o texto de Sarah Boxer traz de novo? Bom, entre outras coisas, faz um resgate histórico do uso do termo blog (tá bom, isso não é novo...); analisa de que maneira seu crescimento tem a ver com um novo comportamento da sociedade, mais participativa; e revela como a escrita "bloguistica" se distancia da prosa que se lê nos jornais, por exemplo. E no ponto alto do texto Boxer escreve que um blog está perto de perder sua originalidade quando --- vejam só, blogueiros nativos --- o dinheiro começa a correr solto. É por isso que os jornalistas não conseguem blogar. Eles, simplesmente, seguem fazendo relatos jornalísticos, o que é totalmente diferente do texto de Blog (mais próximo, diz a autora, dos diálogos de Platão) --- e isso, nem mesmo Pedro Doria, reconhecido jornalista-blogueiro, parece ter entendido direito.
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